Estádio Azteca, Cidade do México O grupo visitante de amigos alienígenas cruzou cerca de quatro bilhões de anos-luz para assistir à Copa do Mundo da FIFA de 2026. Agora já estavam prontos para arrumar as malas e voltar para casa. "Isso é uma droga", disse um deles numa língua subsônica e arrastada.
"Futebol", disse o porta-ser do grupinho de amigos, "é simplesmente frouxo demais para uma espécie transestelar."
A Copa do Mundo tinha sido descrita a eles como o principal evento da humanidade, a disputa pela qual nações inteiras param de trabalhar, fazem quebra-quebra em suas maiores cidades e cometem assassinatos quando seu time perde. O grupinho de amigos assistiu a vinte e dois humanos adultos correrem atrás de uma bola por uma tarde inteira e produzirem um único ponto. Eles levaram mais tempo para achar vaga no estacionamento.
"Quando é que vamos ver sangue e tripas?" perguntou o porta-ser.
Os alienígenas mostraram o caminho às civilizações antigas
"Nós ensinamos as suas civilizações primitivas a construir arenas, a armar os seus escravos e a resolver a tarde a sangue", disse o grupinho de amigos. Ele evocou os jogos gladiatórios de Roma, as quadras de bola da Mesoamérica onde o lado perdedor era sacrificado, e os mais variados festivais que terminavam num funeral.
"A evolução dos esportes de vocês foi absolutamente patética", disse. "Onde está a glória encharcada de sangue? Onde está a agonia de ficar sem pés? Uma espécie se define pelo seu esporte. Não admira que vocês tenham uma civilização tão patética."
O grupo E.T. pareceu recordar com carinho a sua própria história de competição atlética sangrenta. "Esporte de sangue forma o caráter! Vocês nunca serão uma grande civilização se simplesmente deixarem todo mundo viver."
Não é por aí
Voltando para o Dia da Revelação, o grupinho de amigos estava empolgado para ver campos sangrentos, juncados de metros de intestino humano. Em vez disso, encontrou futebol.
O marketing da FIFA talvez tenha a culpa. Os folhetos interplanetários haviam anunciado 'emocionante combate um contra um' e 'rivalidades para a vida toda' a potenciais visitantes interestelares.
"É assim que os humanos desafiam um rival de uma vida inteira?" perguntou o porta-ser. "Caindo no chão e fingindo que estão com câimbra na perna?"
O lema da FIFA, 'Pelo Jogo. Pelo Mundo.', não esclareceu nada. "Quem vence leva o planeta, certo?" perguntou o porta-ser. "Como é que uma cobrança de pênalti poderia legitimar qualquer tipo de ditadura genocida? Nós não confiaríamos em nenhum líder que não conseguisse demonstrar suas proezas no campo de batalha."
"Lembram daquele Coliseu que construímos para vocês?" disse o porta-ser. "A gente virou as costas por dois mil anos. Meros dois mil anos! E vocês substituíram o Golpe Final por uma regra de impedimento. A gente ainda nem consegue entender o que é impedimento, mas dá para ver que não envolve nenhuma evisceração."
Sugestões de melhoria
Perguntados sobre o que poderia melhorar a experiência, o grupo, a princípio, enrolou. "Sei lá. Talvez facilitar o estacionamento? A nossa nave está pairando sozinha em espaço aéreo restrito neste exato momento, com o pisca-alerta ligado."
"Que tal pelo menos uma morte garantida por tempo?" perguntou outro amigo do grupinho. "Estamos aqui há três horas e nada. Já esperamos mais tempo por elevador."
As sugestões continuaram a jorrar como sangue de um pescoço degolado. "Tá, tá, tá, sabe o que seria DAHORA", acrescentou o quietinho lá do fundo. "Bolas de futebol que EXPLODEM. Tipo, você tá driblando, driblando, e aí BUM. Arranca as pernas do cara fora. E aí o outro tem que marcar antes que a bola DELE exploda."
Estava só começando. O automobilismo, propôs, deveria ser disputado sem cinto de segurança, e também sem freios, e também os carros pegando fogo o tempo todo, e no fim o vencedor é "quem estiver pegando MENOS fogo". O repórter presente notou que o grupinho de amigos tinha começado a fornecer seus próprios efeitos sonoros. Pou. Pou. Vrum. BUM.
"E paraquedismo, né, mas sem paraquedas", continuou, agora de pé. "E o chão é lava. E tem tubarões na lava. Tubarões voadores. Com mochilas a jato." A equipe de marketing da FIFA começou a perder o interesse, mas um roteirista da franquia de filmes do James Bond, ali perto, começou a rabiscar furiosamente num caderno.
As propostas avançaram rápido demais para serem transcritas. Boxe, mas as cordas são elétricas e o chão é elétrico e as luvas são homenzinhos. A maratona, mas o percurso inteiro está em chamas, exceto por um ladrilho, e o ladrilho se move. O salto em altura, sem mudança nenhuma, só que o sarrafo é um segundo concorrente, mais faminto, "e ele também está pegando fogo, e tem uma espada."
FIFA concede o Prêmio da Paz a alienígenas brutais e sanguinários
Numa cerimônia organizada às pressas, a FIFA entregou ao grupinho de amigos o seu Prêmio da Paz anual, citando o "incansável compromisso com a destruição da civilização" dos visitantes e sua "ousada nova visão de ditadura impiedosa". A honraria, observou a FIFA, mantém-se fiel à sua linhagem de laureados sociopatas.
O grupinho de amigos arrancou o Prêmio da Paz de maneira indelicada e dominadora, agradeceu a si mesmo e então perguntou ao apresentador, ao vivo no palco, se ele gostaria de ter as próprias pernas arrancadas, "só um pouquinho, só para as câmeras". A FIFA descreveu depois a troca como o momento mais autêntico da história da cerimônia, e confirmou que o prêmio do ano que vem já estava "reservado".
No fechamento desta edição, os alienígenas entediados já tinham migrado para as telenovelas em espanhol. "Esse povo sabe o que é ser bárbaro impiedoso."