Vila Esperança, interior Um amplo relatório do Instituto para a Solidão Doméstica confirma o que as famílias há muito suspeitavam, mas nunca ousaram interromper: o pai contemporâneo realizou sua aspiração mais profunda, que é ficar em silêncio entre suas ferramentas sem ter de prestar contas a ninguém.
O estudo acompanhou um pai representativo, observando que ele entrava na garagem quatro vezes por dia, anunciando a cada vez que ia 'dar uma olhada numa coisa'. Os investigadores não conseguiram determinar qual era a coisa, e concluíram que o pai também não conseguia. Os filhos acham que ele está construindo algo. A esposa acha que ele está consertando algo. O pai, procurado para comentar, segurava um único parafuso que tinha na mão desde a primavera anterior, e descreveu a si mesmo como 'bem no meio do processo'.
Ele não está se escondendo da família, uma distinção que a família não pediu e que ele fez questão de oferecer quatro vezes. Ele os ama ferozmente, e é exatamente por isso que precisa, de vez em quando, amá-los a partir de uma estrutura presa à casa, mas que tecnicamente não fica dentro dela.
Os pesquisadores fizeram questão de notar que a garagem não precisa conter um projeto, um carro, nem sequer um motivo. Ela só precisa conter a porta, e a porta precisa fechar. Vários dos pesquisados, quando pressionados, não souberam dizer o que havia ali dentro, apenas que era deles.
O relatório acrescenta que o comportamento é hereditário. Todo pai aprendeu a garagem com o próprio pai, um homem que ele amava daquele jeito complicado e meio morno reservado a quem primeiro te ensina a desaparecer, e que, na maioria dos dias, ele não suportava. Cada um agora transmite isso a filhos que um dia ficarão de pé em garagens próprias, segurando um parafuso, em silêncio incapazes de perdoar o homem que lhes mostrou como.
O instituto encerrou com uma única recomendação para as famílias do país: deixem. Ele vai voltar para dentro. Ele sempre volta para dentro. Ele só gosta de saber que a porta é dele.
O Satyr Satire foi até a garagem para escrever esta matéria e, até o fechamento da edição, ainda não voltou para dentro.